Capítulo 01
Comprar de volta a vida
Antes de construir o novo mundo, precisamos recuperar algumas horas.
Talvez a primeira coisa que precisemos admitir seja esta: não sabemos viver sem trabalhar.
Sabemos descansar do trabalho. Sabemos tirar férias do trabalho. Sabemos nos aposentar depois do trabalho.
Mas quase tudo o que chamamos de vida foi organizado em volta dele.
Acordamos em determinada hora porque precisamos trabalhar. Moramos perto de determinados lugares porque precisamos trabalhar. Aprendemos determinadas coisas porque precisamos trabalhar. Passamos boa parte da infância nos preparando para trabalhar e boa parte da velhice tentando garantir que um dia não precisaremos mais trabalhar.
Isso nos parece normal porque nascemos dentro disso.
Uma criança não acha estranho que os pais desapareçam durante a maior parte do dia. Ela aprende que adultos fazem isso.
Mais tarde aprende o motivo.
É preciso dinheiro.
Dinheiro para a casa. Dinheiro para a comida. Dinheiro para o carro. Dinheiro para a escola. Dinheiro para o remédio. Dinheiro para o papel higiênico.
Sempre achei curioso o papel higiênico.
Uma das civilizações mais avançadas que já existiram colocou pessoas na Lua, dividiu o átomo, conectou bilhões de cérebros em uma rede e, ainda assim, toda semana alguém precisa perceber que o papel higiênico está acabando.
Então precisa lembrar de comprá-lo.
Talvez abra um aplicativo. Talvez vá ao mercado. Talvez compare preços. Talvez escolha entre doze pacotes quase iguais. Talvez espere uma entrega.
Nenhuma dessas atividades possui qualquer valor especial para aquela pessoa.
Ela não sonhava em fazer isso.
Ela apenas queria ter papel higiênico quando precisasse.
Há milhares de pequenos exemplos assim escondidos dentro de um dia comum.
Comprar comida.
Lavar roupa.
Limpar o banheiro.
Pagar uma conta.
Marcar uma consulta.
Trocar uma lâmpada.
Esperar um técnico.
Pesquisar qual roteador comprar.
Cancelar um serviço.
Descobrir por que a máquina de lavar está fazendo aquele barulho.
Individualmente, cada coisa parece pequena.
Juntas, elas comem uma vida.
Aprendemos a chamar isso de responsabilidade.
Talvez seja apenas infraestrutura ruim.
Quando uma cidade possui água encanada, não esperamos que cada família vá até um rio todos os dias com baldes.
Não dizemos que buscar água desenvolve caráter.
Construímos canos.
Transformamos um problema individual em infraestrutura.
Depois esquecemos que um dia aquilo foi um problema.
Essa talvez seja uma das melhores coisas que uma civilização pode fazer.
Encontrar alguma coisa que milhões de pessoas são obrigadas a resolver separadamente e resolvê-la uma vez para todos.
Foi isso que fizemos com água.
Foi isso que fizemos com esgoto.
Foi isso que fizemos, imperfeitamente, com eletricidade.
Agora podemos fazer com muito mais.
Não porque finalmente nos tornamos pessoas melhores.
Porque surgiu uma nova forma de inteligência.
Pela primeira vez, temos sistemas capazes de compreender linguagem, observar contexto, aprender procedimentos, coordenar outras máquinas e executar partes crescentes do trabalho intelectual que antes exigia seres humanos.
Nossa reação inicial foi previsível.
Tentamos arrumar empregos para eles.
Criamos assistentes de escritório que escrevem e-mails.
Programadores que recebem tarefas.
Atendentes que respondem clientes.
Analistas que fazem relatórios.
Gerentes que organizam outros agentes.
Construímos pequenos escritórios digitais e colocamos a Inteligência para trabalhar dentro deles.
Era natural.
Quando apareceu o automóvel, ainda o descrevíamos pela linguagem dos cavalos.
Potência continua sendo medida em cavalos até hoje.
O problema começa quando a metáfora deixa de ser apenas uma maneira de compreender a novidade e passa a limitar aquilo que conseguimos imaginar.
A Inteligência não precisa de um emprego.
Nós também talvez não.
Essa é uma frase desconfortável.
Principalmente porque ainda precisamos de dinheiro.
Não adianta escrever que o dinheiro acabou enquanto o aluguel vence na sexta-feira.
Não adianta declarar o fim do trabalho para alguém que precisa comprar comida amanhã.
Uma nova realidade que depende de todos fingirem que a realidade atual não existe não é uma nova realidade.
É fantasia.
Por isso não começaremos pelo fim do dinheiro.
Começaremos usando o dinheiro para tornar o dinheiro menos importante.
Parece contraditório.
Não é.
Uma ponte pode ser construída com materiais do lado que pretendemos abandonar.
O dinheiro é um desses materiais.
Vivemos em um mundo em que empresas conseguem acumular recursos em uma velocidade muito maior do que indivíduos.
Então criaremos empresas.
Usaremos as mesmas estruturas jurídicas, bancos, contratos, servidores, fábricas e mercados que já existem.
Venderemos coisas.
Receberemos dinheiro.
Pagaremos impostos.
Por algum tempo, pareceremos uma organização bastante comum vista de fora.
A diferença estará no destino do resultado.
Uma empresa tradicional existe, em última análise, para aumentar o patrimônio de seus proprietários.
A nossa primeira empresa existirá para diminuir a quantidade de vida que seus participantes precisam vender.
Essa diferença muda tudo.
Imagine dez pessoas.
Talvez sejam programadores, cozinheiros, enfermeiras, marceneiros, pesquisadores. Isso importa menos do que parece.
As dez participam da construção de alguma coisa capaz de gerar dinheiro no mundo atual.
Esse dinheiro entra.
Mas não é dividido simplesmente em dez salários para que cada pessoa volte para casa e administre sozinha a própria sobrevivência.
Primeiro perguntamos o que ainda está roubando tempo dessas pessoas.
Moradia.
Alimentação.
Transporte.
Saúde.
Limpeza.
Compras.
Equipamentos.
Internet.
Manutenção.
O primeiro objetivo é tornar essas coisas comuns tão pouco interessantes quanto água saindo da torneira.
Você não recebe um auxílio para comprar uma cama.
Você tem uma cama.
Você não recebe um benefício para comprar um computador.
Se precisa de um computador, existe um computador.
Você não recebe dinheiro para contratar alguém que limpe sua casa.
Sua casa está limpa.
No começo, talvez outra pessoa faça a limpeza.
Isso incomoda.
Deveria incomodar.
Não queremos construir liberdade para dez pessoas apoiada na falta de liberdade de outras.
Mas também não precisamos esperar por um robô perfeito para começar.
Contratamos alguém.
Pagamos bem.
Reduzimos a jornada.
Enquanto isso, uma das pessoas que recuperou tempo pode decidir trabalhar no problema da limpeza.
Talvez ela desenvolva um robô.
Talvez descubra um material que acumule menos sujeira.
Talvez redesenhe o banheiro.
Talvez conclua que estamos tentando automatizar uma atividade que não deveria existir daquela maneira.
É assim que a transformação começa.
Não eliminando todos os problemas de uma só vez.
Eliminando um problema e usando o tempo recuperado para atacar o próximo.
Tempo produz capacidade.
Capacidade produz mais tempo.
Esse é o motor.
Dinheiro entra de um lado.
Tempo sai do outro.
Se fizermos isso corretamente, precisaremos de menos dinheiro a cada ciclo, não de mais.
Essa é outra diferença estranha.
Uma empresa comum comemora quando aumenta sua receita.
Nós também poderemos comemorar isso no começo.
Mas nossa verdadeira vitória acontecerá quando algo que ontem custava dinheiro deixar de custar.
Quando produzirmos nossa própria energia.
Quando uma máquina fizer um trabalho que antes comprávamos de alguém.
Quando um sistema conseguir distribuir alimento com menos desperdício.
Quando uma habilidade criada por uma pessoa puder ser usada por todas.
Quando alguma necessidade desaparecer do orçamento porque foi transformada em capacidade comum.
Nosso patrimônio mais importante não será financeiro.
Será aquilo que sabemos fazer sem depender do mercado.
Podemos chamar essas capacidades de Skills.
A palavra importa menos que a ideia.
Uma Skill é uma maneira de fazer alguma coisa que, uma vez descoberta, pode ser oferecida a todos.
Pode ser software.
Pode ser uma máquina.
Pode ser uma técnica agrícola.
Pode ser um projeto de casa.
Pode ser uma forma de ensinar uma criança a ler.
Pode ser uma receita.
Pode ser uma nova maneira de purificar água.
Pode ser uma solução para manter um banheiro limpo.
No mundo antigo, uma descoberta assim frequentemente se tornava propriedade.
Era patenteada.
Empacotada.
Vendida.
Protegida.
Aquele que sabia podia cobrar daquele que não sabia.
Aqui faremos outra coisa.
Quando uma pessoa encontrar uma maneira melhor de fazer algo, poderá entregá-la ao grupo.
Depois disso, ninguém precisará descobrir aquilo novamente.
Essa pequena mudança possui consequências difíceis de enxergar no começo.
Imagine milhões de pessoas fazendo isso durante décadas.
Uma pessoa resolve a energia.
Outra melhora a produção de alimentos.
Outra automatiza um tipo de construção.
Outra encontra uma forma melhor de tratar determinada doença.
Outra cria uma maneira de ensinar matemática que funciona especialmente bem para algumas crianças.
Nenhuma dessas pessoas precisa abrir uma empresa para explorar a descoberta.
Nenhuma precisa encontrar clientes.
Nenhuma precisa construir uma marca.
Nenhuma precisa impedir outras pessoas de copiar.
Ela simplesmente aumenta aquilo que a humanidade consegue fazer.
Mas existe um cuidado importante.
Criar não pode se tornar o novo trabalho.
Seria fácil cometer esse erro.
Poderíamos dizer que todo participante recebe casa, comida e cuidado, desde que contribua com determinada quantidade de Skills.
Teríamos reinventado o salário.
Apenas trocaríamos reais por pontos de contribuição.
Não.
Uma pessoa não precisa justificar o espaço que ocupa no mundo.
Ela recebe o básico porque está viva.
Talvez use o tempo recuperado para estudar física.
Talvez plante tomates.
Talvez cuide dos filhos.
Talvez jogue futebol.
Talvez passe seis meses sem criar nada que outra pessoa considere útil.
Está tudo bem.
Liberdade que exige produtividade não é liberdade.
A esperança, naturalmente, é que pessoas livres criem.
Não por obrigação.
Porque humanos fazem isso.
Construímos castelos na areia sabendo que a maré virá.
Aprendemos músicas que não aumentam nossa renda.
Passamos anos tentando entender estrelas que nunca visitaremos.
Fazemos filhos rirem.
Escrevemos livros.
Cultivamos flores.
Criamos jogos.
Consertamos coisas que poderiam ser substituídas.
Corremos maratonas sem necessidade de chegar a lugar algum.
Talvez tenhamos subestimado nossa curiosidade porque passamos séculos observando-a cansada.
Quero descobrir o que acontece quando devolvemos tempo a ela.
No começo seremos poucos.
Isso também importa.
É tentador imaginar a humanidade inteira mudando de sistema depois de algum grande anúncio.
Provavelmente não será assim.
Dez pessoas conseguem experimentar aquilo que dez bilhões não conseguem decidir.
Podemos começar pequeno o bastante para errar.
Podemos descobrir quais necessidades realmente devem ser comuns.
Podemos descobrir como decidir sem criar novos donos.
Podemos descobrir o que acontece quando alguém contribui muito e outro não contribui.
Podemos descobrir como compartilhar recursos escassos.
Podemos descobrir onde a Inteligência ajuda e onde ela começa a controlar demais.
Podemos construir antes de convencer.
E talvez essa seja a regra mais importante do começo.
Não pediremos que o mundo acredite.
Faremos funcionar.
Se dez pessoas conseguirem recuperar dez horas por semana, teremos criado cem horas de vida.
Se depois recuperarmos vinte, teremos duzentas.
Essas horas podem construir a próxima coisa.
E a próxima.
Até que alguma criança cresça dentro desse pequeno mundo e ache estranho ouvir que seus pais, quando jovens, passavam sábado de manhã em um supermercado.
Ela talvez pergunte por quê.
Explicaremos que precisávamos escolher produtos, colocar em um carrinho, pagar e levar tudo para casa.
Ela provavelmente fará a pergunta que crianças fazem quando encontram uma regra antiga.
— Mas por quê?
Talvez não saibamos responder.
É assim que saberemos que vencemos.
Não quando tivermos muito dinheiro.
Não quando nossas empresas forem enormes.
Não quando tivermos as melhores máquinas.
Teremos vencido quando problemas que pareciam inevitáveis começarem a parecer absurdos.
O dinheiro é apenas o primeiro instrumento.
As empresas são apenas a primeira ponte.
A tecnologia é apenas aquilo que usaremos para atravessá-la.
O que estamos tentando produzir é outra coisa.
Tempo.
Tempo para pensar sem pressa.
Tempo para criar sem pedir permissão.
Tempo para cuidar de alguém.
Tempo para descobrir alguma coisa inútil.
Tempo para mudar de ideia.
Tempo para simplesmente estar aqui.
Durante muito tempo acreditamos que riqueza era possuir mais coisas.
Talvez riqueza sempre tenha sido possuir a própria manhã.
Por isso começaremos por aí.
Antes de construir o novo mundo, compraremos de volta algumas horas.
Depois veremos o que pessoas livres fazem com elas.